DANÇA CONTEMPORÂNEA PARA CRIANÇAS

*Por Renata Fernandes

Identificamos no trabalho da dança contemporânea para crianças algumas preocupações fundamentais:

  1. Entender a dança como espaço de expressividade do indivíduo e portanto a dança como forma de comunicação;
  2. Entender a dança como possibilidade de educação social, estética e cinestésica;
  3. Aproximar as crianças de seu corpo e sua consciência sobre ele: como se movem as partes, como nos movemos pelo espaço, como nos movemos em conjunto, ação e repouso etc., entendendo que a educação do e pelo movimento favorece a integração individual e social da pessoa;
  4. Possibilitar a identificação de diferentes formas e qualidades de movimento por meio da apreciação da dança do outro;
  5. Aproximar as crianças de diferentes concepções estéticas e formas de composição em dança: coreográfica, por improvisação, por jogos etc.
  6. Entender a brincadeira bem como as danças tradicionais e sociais como território de trabalho da dança contemporânea com crianças;
  7. Propor um caminho que respeite uma pessoa em formação cuidando de aspectos físicos e cognitivos adequados a esta fase da infância.
  8. Porque esta abordagem é extremamente cuidadosa com a formação do indivíduo ela possibilita a quem dança adquirir uma consciência dos próprios limites, inclinações, habilidades e desafios a serem conquistados. Desta maneira lembramos que a dança é para todos que a desejam: meninas e meninos; altos e baixos; gordos e magros. Dança-se a partir do que se é e não do que falta, do que não se é. E então o encontro com o outro é uma oportunidade de celebração e aprendizagem.

 

COMO A DANÇA CONTEMPORÂNEA FORNECE REPERTÓRIO À CRIANÇA?          

As ideias de princípios do movimento, dinâmicas de movimento, temas de movimento e outros nomes correlatos foram lançadas (testadas e aprofundadas) por diversos estudiosos da dança no último século. Esta abordagem é de fato importante: o domínio de variadas dinâmicas e princípios por meio de estudos de temas de movimento, por exemplo, leva uma pessoa não apenas a desenvolver seu próprio repertório de movimentos de característica mais autoral, forjada a partir de preferências, inclinações e autoconhecimento mas também (e por isso) apta a aprender com maior facilidade técnicas formalizadas e estilos de dança variados. Há inúmeros relatos de pessoas que foram iniciadas na dança pela vertente da dança moderna ou contemporânea que disseram ter conseguido aprender flamenco ou dança indiana, por exemplo, em tempo recorde.

Além disso o vocabulário adquirido neste percurso é bastante rico permitindo que a pessoa que dança possa “ler” com mais facilidade o movimento de outras pessoas, de outros bailarinos, mesmo que em outras técnicas leve outro nome. Trata-se afinal de um estudo do princípio do movimento. Neste caminho investigamos muitas vezes e com afinco: qual o peso de um movimento? É possível executá-lo mais lento? Quão mais lento/rápido posso fazer? Qual é o limite do meu movimento do espaço? Posso realizar este movimento apenas vizinho ao meu corpo ou posso expandi-lo? É possível girar com resistência? O que gera resistência ao meu giro? A qualidade de fluência do meu gesto é livre ou controlada? Para cada pergunta existirá uma resposta diferente, para diferentes contextos. Se estou dançando um solo faço um escolha, se estou dançando num grupo de dez pessoas a resposta provavelmente será diferente. Se estou dançando num palco o espaço dará algumas opções, se minha dança acontece na rua o espaço exigirá outras soluções. O contexto solicitará respostas que só cabem a ele. Tudo isso é investigação, é aprendizagem e é processo de criação. Todo este vocabulário de dança é experimentado no corpo e a própria investigação gera repertório: uma bolsa de soluções corporais para problemas dançantes.

A POESIA DA DANÇA

Por fim vale a pena lembrar que a dança não está a serviço apenas de comunicar ideias. Ela mesma (assim como outras linguagens artísticas) é uma forma de ter ideias, de criar ideias, de fazer e modelar nossa experiência e consciência de novas maneiras. Pina Bausch, (importante coreógrafa alemã falecida em 2009) coloca em poucas palavras um lugar fundamental da dança na vida de indivíduos e de sociedades inteiras:

“Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança.”

 

Desta forma a dança nos importa sobretudo por causa da poesia que ela traz. Mais do que mover corpos conscientemente pelo espaço, mais do que uma oportunidade de socialização e desenvolvimento cognitivo, mais do que fazer-nos corajosos, sensíveis e autoconfiantes: a dança nos importa por causa da abertura que ela provoca na visão de mundo de quem dança.

 

RENATA FERNANDES é artista, educadora e pesquisadora em dança formada em Dança pela UNICAMP e mestre em Artes pela UNESP. Trabalha com crianças há 10 anos tendo experiência no âmbito da educação formal e não formal. Neste período realizou cursos de atualização em dança e educação na Itália, participou de laboratórios de criação com diversos artistas nacionais e internacionais e foi premiada por iniciativas de práticas e investigação que aproximam a arte da dança das crianças junto a coletivos de arte em São Paulo e Santos.

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